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Depressão e aceleração do tempo: uma leitura psicanalítica a partir de Maria Rita Kehl

  • Foto do escritor: claudiamourafreire
    claudiamourafreire
  • 17 de mar.
  • 3 min de leitura

Pessoa sentada em ambiente silencioso, com expressão introspectiva, sugerindo reflexão e sensação de vazio, em contraste com um fundo que remete à rotina acelerada e à pressão do cotidiano contemporâneo.
 A depressão também expressa o modo de vida contemporâneo e a falta de tempo para elaborar a experiência.

Nos últimos anos, a depressão tornou-se um dos temas mais discutidos no campo da saúde mental. Embora frequentemente associada apenas a fatores individuais ou biológicos, diversos psicanalistas propõem ampliar essa compreensão, observando também os elementos sociais e culturais envolvidos no sofrimento psíquico.


Entre essas contribuições, destaca-se o trabalho da psicanalista Maria Rita Kehl, especialmente em sua obra O tempo e o cão: a atualidade das depressões. Nessa reflexão, a autora propõe compreender a depressão não apenas como um transtorno individual, mas também como um sintoma que expressa características do tempo em que vivemos.


A aceleração como marca da vida contemporânea

A sociedade contemporânea é marcada por uma forte aceleração do tempo. O ritmo das transformações sociais, tecnológicas e profissionais exige respostas rápidas, produtividade constante e adaptação permanente.

Essa lógica de velocidade atinge diferentes dimensões da vida. O tempo destinado ao trabalho, ao lazer, às relações e até ao descanso passa a ser organizado de maneira cada vez mais intensa.


Segundo Maria Rita Kehl, essa aceleração pode produzir efeitos importantes na experiência subjetiva das pessoas. Quando não há espaço suficiente para elaborar vivências, perdas e conflitos, a vida psíquica tende a empobrecer.


A perda da experiência

Um dos pontos centrais da reflexão de Kehl é a ideia de que a experiência humana necessita de tempo para se constituir. A elaboração de acontecimentos, emoções e mudanças exige uma duração que nem sempre encontra espaço no cotidiano acelerado.


Quando tudo acontece rapidamente demais, torna-se difícil transformar acontecimentos em narrativa. O sujeito passa a viver sucessões de eventos sem conseguir atribuir sentido ao que acontece.


Nesse contexto, a depressão pode surgir como expressão dessa perda de experiência. Em vez de um conflito psíquico intenso, muitas vezes aparece uma sensação de vazio, desânimo ou falta de perspectiva.


A depressão como sintoma social

Ao observar o aumento dos quadros depressivos, Kehl propõe que esse fenômeno não pode ser explicado apenas por fatores individuais. Ele também precisa ser compreendido em relação às formas de organização da vida social.


A lógica contemporânea valoriza produtividade constante, desempenho e comparação permanente. Nesse cenário, muitas pessoas passam a avaliar a própria vida segundo parâmetros de sucesso e eficiência difíceis de sustentar.

Quando esses ideais não são alcançados, podem surgir sentimentos de fracasso, inadequação e perda de sentido.


O lugar da psicanálise clínica

A psicanálise não busca eliminar rapidamente os sintomas, mas compreender o que eles expressam na história singular de cada pessoa.


No caso da depressão, a escuta clínica permite investigar como cada sujeito se relaciona com o tempo, com suas expectativas e com as exigências sociais que atravessam sua vida.


Esse trabalho não consiste em oferecer respostas prontas, mas em criar um espaço onde experiências possam ser elaboradas e transformadas em palavra.


Considerações finais

Pensar a depressão a partir da perspectiva de Maria Rita Kehl permite ampliar a compreensão desse sofrimento. Em vez de tratá-la apenas como um problema individual, torna-se possível reconhecer sua relação com o modo de vida contemporâneo.


Essa reflexão não substitui abordagens médicas ou psicológicas, mas contribui para compreender como o contexto social influencia a experiência subjetiva.

Na prática clínica, cada história é singular. A psicanálise oferece um espaço de escuta onde o sofrimento pode ser elaborado com tempo, respeito e cuidado.


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Sou Claudia Moura, psicanalista clínica em Vitória - ES, com atendimento online para adolescentes e adultos em todo o Brasil. Minha prática é fundamentada na ética, no sigilo e no respeito ao tempo singular de cada analisando.


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REFERÊNCIAS


CPFL, Café Filosófico. Aceleração e Depressão | Maria Rita Kehl. Vídeo online. Youtube, s.d. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=kwxyT5n6E9o>. Acesso em 12 de maio de 2022.


FREIRE, Claudia Eny Moura. Psicanálise e Depressão na Sociedade Hodierna. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Psicanálise Clínica) – Faculdade de Tecnologia e Ciências Alto Paranaíba (FATAP), Vitória, 2022.


KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. Boitempo Editorial, 2015. Disponível em: <https://meridianum.ufsc.br/files/2017/09/KEHL-Maria-Rita.-O-tempo-e-o-c%C3%A3o.pdf>. Acesso em 5 de maio de 2022.


MINISTÉRIO DA SAÚDE, Governo Federal. Depressão. Documento online. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/depressao-1>. Acesso em 20 de abril de 2022.


OPAS, Organização Pan-Americana da Saúde. Pandemia de COVID-19 desencadeia aumento de 25% na prevalência de ansiedade e depressão em todo o mundo. Documento online. Disponível em: <https://www.paho.org/pt/noticias/2-3-2022-pandemia-covid-19-desencadeia-aumento-25-na-prevalencia-ansiedade-e-depressao-em>. Acesso em 3 de maio de 2022.


TV Boitempo. Maria Rita Kehl | O tempo e o cão: a depressão como sintoma social. Youtube, 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Vnw6Xd7eKBQ>. Acesso em 10 de maio de 2022.

 
 
 
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